Produtos químicos tóxicos ameaçam a fertilidade humana, diz Shanna Swan

Em seu novo livro, a professora de medicina do Hospital Mount Sinai, em Nova York, analisa o impacto de produtos químicos na sexualidade e fertilidade humana.

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Shanna Swan é a pesquisadora responsável por um estudo de 2017 que mostrou uma dramática queda na contagem de esperma em países ocidentais ao longo da última metade do século passado. A metanálise de 185 estudos envolvendo 42.935 homens descobriu que a contagem total de espermatozoides caiu 59% entre 1973 e 2011. Swan, uma epidemiologista da reprodução, apontou para o papel que os produtos químicos presentes no ambiente possuem nessa tendência. Agora ela escreveu “Contagem Regressiva: como nosso mundo moderno está ameaçando a contagem de espermatozoides, alterando o desenvolvimento reprodutivo masculino e feminino e ameaçando o futuro da raça humana” (ainda sem edição brasileira). O livro vincula substâncias químicas industriais presentes em produtos de uso diário a uma ampla gama de mudanças nos últimos anos, incluindo o número crescente de bebês nascidos com pênis menores, taxas mais altas de disfunção erétil, declínio da fertilidade, e o comprometimento das diferenças sexuais em algumas espécies animais, até mesmo em comportamentos “típicos” de cada gênero.

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Shanna Swan, epidemiologista da reprodução.

Foto: Arquivo Pessoal/Shanna Swan

A entrevista foi editada para ajustes em sua extensão e clareza.

Houve muita cobertura da mídia quando aquele estudo sobre esperma foi lançado. Isso provocou alguma mudança de políticas, ou ações substanciais em relação à exposição a produtos químicos?

Não, nada aconteceu. Falar em reuniões científicas e escrever artigos científicos também não ajudou. Então, talvez o livro ajude.

Como você começou a estudar produtos químicos e reprodução?

Tudo começou com a síndrome do ftalato.

Essa foi a descoberta de que ratos fetais expostos a ftalatos 18 a 21 dias após o acasalamento tinham maior probabilidade de nascer com órgãos genitais com malformação, mas os que foram expostos a esses produtos químicos desreguladores endócrinos antes ou depois dessa janela não tiveram o problema, é isso?

Isso mesmo. Em 2000, um colega dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças me disse que eles eram capazes de medir muitos produtos químicos, incluindo ftalatos, em doses baixas, por um custo baixo, em muitas pessoas. Foi um avanço na área. Eu tinha acabado de fazer um estudo com mães de bebês pequenos, e ainda tinha a urina das mulheres grávidas, e os bebês eram muito pequenos. Ele disse que eu deveria estudar os ftalatos. Então pensei: OK, e se eu imitar o estudo em animais e procurar os mesmos parâmetros que eles encontraram em ratos? E se eu pudesse buscá-los em humanos e vinculá-los aos ftalatos?

E você fez isso?

Sim. Encontramos a síndrome em humanos.

Seu estudo mostrou que bebês meninos que foram expostos a quatro ftalatos diferentes no final do primeiro trimestre no útero tinham uma distância anogenital, ou AGD, mais curta. Você pode explicar o que é AGD e por que é importante?

Basicamente, é a distância entre o ânus e o início dos genitais. E os cientistas há muito reconhecem sua importância. Tem um artigo de 1912 que examina os AGD, mostrando que eles eram quase 100% mais longos nos homens do que nas mulheres. Nosso trabalho mostrou que os produtos químicos, incluindo o dietilhexil ftalato, encurtam o AGD nos homens.

Você também vinculou a exposição ao ftalato à falta de interesse sexual.

Sim, encontramos uma relação entre os níveis de ftalato das mulheres e sua satisfação sexual. E pesquisadores na China descobriram que trabalhadores com níveis mais altos de bisfenol A no sangue, conhecido como BPA, eram mais propensos a ter problemas sexuais, incluindo diminuição do desejo.

Claro que os ftalatos, que são adicionados a plásticos, alimentos, cosméticos e outros produtos, não são o único problema. Você escreve sobre muitos produtos químicos que interferem com o sistema hormonal e a reprodução, incluindo o pesticida atrazina, que você associou a uma qualidade inferior do esperma, e o glifosato, que você recentemente mostrou que diminui a AGD em ratos e talvez também em humanos. Vale ressaltar que todos esses produtos químicos de que estamos falando ainda estão em uso nos Estados Unidos, enquanto alguns outros países os baniram. Mas me conte: qual a relação entre os desreguladores endócrinos e a forma como as crianças brincam?

Brincadeiras sexualmente dimórficas são controversas. Algumas pessoas dizem que tudo é determinado socialmente. E sem dúvida há determinantes sociais, mas também há determinantes fisiológicos. E mostramos isso em dois estudos. Pedimos às mães de crianças pequenas que nos contassem como seus filhos brincam. É muito simples: com que frequência eles brincam com armas? Brincam com bonecas? Brincam de vestidos? Brincam de fazer chá, etc. E acontece que quando os meninos são expostos aos mesmos produtos químicos que afetam a AGD, eles brincam de uma maneira menos tipicamente masculina.

Os produtos químicos também podem mudar a maneira como meninos e meninas aprendem a falar?

Uma das partes do cérebro que é sexualmente dimórfica tem a ver com a aquisição da linguagem, e as mulheres normalmente estão em vantagem. Quando você pergunta à mãe de uma criança quantas palavras o filho entende, as meninas geralmente sabem muito mais palavras. Mas essa diferença de sexo é diminuída pelos ftalatos. E essa é uma questão predominante: se você olhar para AGD, comportamento lúdico ou aquisição de linguagem, esses produtos químicos diminuem as diferenças sexuais.

Vamos falar sobre fluidez de gênero. Você dedica um capítulo inteiro a explorar se os produtos químicos ambientais podem estar afetando o gênero das pessoas. Como você notou, essa é uma questão muito delicada. Eu não gostaria que algo tão fundamental e pessoal pudesse ser afetado por produtos químicos. Ainda assim, você indica que a ciência estabelecida mostra como esses produtos químicos afetam o sexo biológico e os hábitos de acasalamento em animais – estudos mostrando que os produtos químicos no ambiente podem transformar rãs machos em fêmeas, feminizar sapos e crocodilos e mudar o comportamento sexual e de acasalamento em pássaros e peixes. E você explica no livro que a interferência com os níveis de hormônio no útero pode alterar os órgãos genitais dos bebês. Os animais não têm consciência de gênero, até onde sabemos, e os fatores biológicos não afetam necessariamente o gênero das pessoas, mas qual é a evidência direta de que esses produtos químicos estão afetando o gênero e o sexo humanos?

É especulativo e limitado até o momento. Nosso grupo de crianças tem 8 e 9 anos agora, então vai demorar muito até que possamos avaliar sobre sua sexualidade ou identidade de gênero.

As exposições químicas que você descreve podem impactar gerações. Você pode explicar como os netos de uma pessoa também podem ser afetados por suas exposições?

Os netos são fáceis de explicar. Se você está grávida e carregando um menino, os produtos químicos aos quais você está exposta podem passar para ele através da placenta. Portanto, as células germinativas que criarão seus filhos já estão afetadas. Além disso, aquele menino é exposto a produtos químicos novamente quando adulto. É um sistema atacado duas vezes. Ou, para as gerações subsequentes, três ou quatro vezes. Porque você recebe a contribuição herdada, e depois você tem sua própria contribuição no curso de vida quando crescer.

Como isso acaba?

Mal. É por isso que temos esse declínio contínuo na fertilidade e na qualidade do esperma. Se não recebêssemos o ataque que nossos pais e avós sofreram, então cada geração simplesmente começaria tudo de novo. Seria ruim, mas o impacto seria sempre no mesmo nível. O fato de carregarmos conosco os problemas das gerações anteriores significa que estamos começando em um nível inferior e sendo atingidos repetidamente.

Tradução: Antenor Savoldi Jr.

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